10/06/2009

No Fim

No fim vamos ter que nos encher de coisas boas,
fechar os olhos e tomar-lhes a energia
pegar nas memórias e fazer delas vida
perdido já o corpo do que nos ontens havia.


A vida generosa dá-nos sempre escolha
Perdoa-nos como se fosse a nossa mãe
mil e uma e outra vezes
deixa que nos façamos alguém.


Não é descuido
não é avareza
que o corpo nos caia e amareleça,
não há imperfeição ou negligência
em nada na natureza.

O que trazes vestido para além de teu provisório indumento?

No fim estenderemos as mãos translúcidas
de veios que nos alimentaram como seios
acartando até ao dia em que acabarão nossas dúvidas
o peso das cargas de que fomos esteios.

E se chegada a derradeira hora
em que cruzaremos o mar vasto
a pele caída, os dentes gastos
os pés que não andam, para se ir embora,

poderemos aí ter já cegado
ter sido alvo de penoso erro
mas quem não houver amado
encontrará definitivo enterro.

É esta a forma do homem do mundo
que pensa com o corpo ter ganho a vida
nada tanto o fará fecundo
como o prazo tido até à ida.

§

1 comentário:

Vieira Calado disse...

Muito interessante, o poema!

Beijinhoss