24/12/2007

Oração

Deus Menino abraça-nos no teu Amor
maior que o nosso,
acende-o no coração de todos os homens.


Protege-nos dos nossos erros
com a tua saberoria infinita
perdoa-nos as vezes que te ofendemos,
ofendendo-nos uns aos outros.


Dá-nos a paz merecida
pela vida digna de trabalho
e luta pela sobrevivência das famílias nas sociedades
e dos povos nas guerras.


Faz com que o teu Amor
em meu Amor, no Amor de cada um
se torne no Amor de todos os homens.



Dá-nos a Paz!



Amén

23/12/2007

Despeço-me Porque Sei Lá Estar

Despeço-me da bruma do gelo da neve


despeço-me da pressa do dia caído


digo adeus, foram uvas que ficaram no chão.





Daqui provei a fruta madura,


Ouvi o inóspito vento do norte,


provei a fruta proíbida.





Na bruma do gelo da neve


há a escuridão do vazio


luz branca que cega e impede.





Despeço-me porque sei lá estar,

Já não conheço segredos ali


Despeço-me porque sei de lá sair.

07/12/2007

a todos aqueles

a todos aqueles que não têm presente
e aos que, por isso , não têm futuro
congratulo-me da dádiva de os ter a ambos

a todos aqueles que não têm pão sobre a mesa
ou sapatos para calçar
medicamentos para tratar das feridas
ou consolo por tanto chorar

a todos os que não têm a sorte que eu tive
de estar rodeada de amor e de amigos
a minha grata homenagem por estar entre os que
pelo menos
têm um passado para comemorar.

02/12/2007

LEVA-TE!

Leva-te com os teus vaticínios de má sorte
leva-te, vai-te,
não venhas aqui atirar mais pedras.
as pedras do teu falhanço
que arremessas esperando saná-lo.

Perdeste o aroma morno da candura do amor
para aqui deixares o cheiro a violência da tua passagem
leva-o, respira-o tu agora
Guarda-o que foi de ti que ele emanou
Cheira-o de cada vez que te lembrares de mim.

28/11/2007

Amargura

Amargura
sustentada pela vida poída
Gastura que de tantas causas
Tem causa desconhecida.

Doçura
andas pouco pela vida, perdida
Amor que de tantas caras
me abandonou sem despedida.

***

26/11/2007

Poesia Tida

Poesia...
Difícil despi-la
Da medida do que nos vai na alma
Forma da atitude que abarca a complexidade.

Poesia nua, poesia à chuva
Sei que não te dei os liláses prometidos, as violetas azuis
nem as mil estrelas de uma noite, que gostava de ter para ti.
és vida empalavrada no rumo certo.

Poesia tida, factos da vida
deslumbre de nos ter a pensar descalços
maneira de inscrever na bela aurora
que o além não é nada e a vida é tudo isto.


Para Vash.

19/11/2007

Que de Sem Fundo Vai Pesado

Não queiras agora deixar este barco

que de sem fundo vai pesado.



Se te enganaste nas tuas infelizes promessas

não faças de mim o estorvo das tuas notas erradas.


Guarda-te dos presentes do passado

pois a dívida é alta e já vais tarde...



Foram a amargura, a culpa e o fado, bem sei

que comigo te deixaram sem chão,


Deixa-me só neste barco

que de sem fundo vai pesado.

15/11/2007

Mil Nomes e Nenhum Era o Meu...

Deste-me mil nomes
nenhum era o meu
os de santa, os de ímpia
nenhum foi o meu

Mil nomes, biliões de possibilidades
impossíveis
pois se nenhum era o meu...

Mil nomes e nenhum era o meu
não era de mim que o meu nome saía
Mil nomes de juízos de mim.

14/11/2007

Não deixes que me levem, meu amor

Se o dia for escuro e acabar cedo,
Se o cinzentismo da vida teimar em continuar
não deixes que me levem, meu amor.

Não deixes que me levem mesmo se a minha solidão tiver cheiro a mofo
ainda que as minhas asas já tenham sido impiedosamente rasgadas,
ou se se tiver quebrado o lacre da integridade do meu invólucro.

Não deixes que me levem se a doença um dia queimar a minha pele,
se a tristeza continuar a chorar todos os meus dias
e se os circuitos da vida fizerem de mim aquilo que já sou.

Não deixes que me levem mesmo sabendo tu que eu não quero mais ver o sol
que não quero ver que nunca estive condenada à partida mas estive-o sempre à chegada
Não deixes que me levem daqui, deste pequeno refúgio de nada.

Não deixes que me levem
mesmo quando as pétalas caídas na terra já tiverem selado o meu enterro
E que já todos me tenham dado o seu amor e dito adeus
Por favor,
não deixes que me levem, meu amor.

03/11/2007

Manifesto

Pediste o que não quiseste dar
o que não podias dar
tenho que viver com essa culpa?
(se não pude ser mais)

até que ponto irá a culpa
culpa que fere
culpa pela morte dos mortos
e pelo estado dos vivos
(se não pude dar mais)

Culpa pela falta do derradeiro carinho
do derradeiro gosto de ti
do sempre estive aqui, se sempre estive
se não estive ou não sabia
se estava e não sabia
ou se não sabia
(pela ignorância)

Culpa que cansa
ter que esmiuçar e explicar tudo
se não culpa culpa culpa
culpa tudo
se não quero ter que dizer nada
(pelo cansaço)

Culpa complexa
que no momento nos culpa e no tempo desculpa
Não quero sentir a desculpa
pois tenho culpa
(pelo argumento)

Onde estarão os culpados pela minha ferida
Os culpados da minha culpa?
(da culpa que morre solteira)

Culpa desta culpa não ser passional...
Ser muito mais culpada do que isso.
(pelo desinteresse)

Em última análise
sou culpada pela minha culpa
culpada por não saber desculpar
e não saber desculpar-me
(pela culpa)

23/10/2007

Não te esqueças que foi comigo que partiste para a guerra

Tira-me estas mortes da minha vida
Que já é tarde e eu canso
E não te esqueças que foi comigo
que partiste para a guerra

A dor era o meu vestido
se nada de mim tiveste, não cedas ao queixume
já que essa era certa...
Não te esqueças que foi comigo
que partiste para a guerra

Aceita a marca que te gravei no peito
com ela e à tua custa benzi
todas as maldições que havia de colher
Não te esqueças, foi comigo
que quiseste partir para a guerra

Não é de longe nem de agora
que te vejo partir
Foi comigo, nunca te esqueças
que partiste para a guerra

O que fazer às flores nascidas no topo da colina
que vivem do vento frio da manhã
Aos Álamos da beira da estrada
Às estrelas do céu ou ao mar dourado
Se deixaste que das carícias se fizesse sangue


Não te esqueças,
Não esquecerás nunca
que foi comigo
que partiste para a guerra.

09/10/2007

Inferno

Vi-te o inferno nos olhos

não acreditei, ignorei



vi-te com o inferno nos olhos

nada pude fazer



Senti-te crepitar

o inferno que tinhas

nos olhos



Vi-te enlouquecer

vi-te o inferno nos olhos




Sei que incendiaste a todos

ninguém foi poupado ao teu diabólico

Inferno





Vi-te

caminhar sobre o fogo

sem que este consumisse

o inferno que te vi nos olhos.



26/09/2007

Impossível Ousadia

impossível ousadia
caminhar, consciente
para o amor fracassado

Mais que amor,
que o amor terno,
a loucura,

matar ou morrer por amor
matar e morrer de amor

ousadia surreal
de tão impossível
ousadia

malfadado arrojo,
inútil alienação
fado que se não cumpriu

matar e morrer por amor
matar e morrer de amor

impossível ousadia
ter algum dia ousado o amor



* * *



15/09/2007

Abraçada II

Com as suas mochilas e uma tenda às costas, não precisavam de mais nada para prosseguir, trabalhavam em qualquer lugar e tinham consigo tudo aquilo que poderia fazer falta: narizes de palhaço, balões, os sorrisos de rugas já cravadas na pele e dois ou três quilos de maçãs vermelhas, oferecidas por um casal de espectadores de perto da terra de onde saíram.

- Quando chegarmos ao Circo, Sebastião, quando estivermos já mesmo a vê-lo, sentamo-nos para prepararmos a nossa entrada triunfante, para combinarmos os nossos melhores truques. Acho mesmo que só depois de descobrirmos qual o número a apresentar é que devíamos comer estas maçãs. Até lá, Sebastião, vamos ter que arranjar público!
- Bem, temos balões para ir até à China!


- Até à China, não sei, pois sei que lá há imensas crianças e os balões não iam chegar para todas. Até podiam mandar algumas 'pra cá! Ouvi dizer que não as querem todas acreditas nisto?

- Ora Martelo, isso é impossível! Acho que ninguém no mundo poderia sequer pensar em mandar os seus filhos embora de casa, disse parando por momentos a caminhada decidida que levavam.

- Não sei se isso é assim, mas mesmo que fossemos até à China, tenho a certeza que lá devem ter lojas onde se vendem balões!

Continuaram a andar com o Sol diagonal já a entrar-lhes por baixo das solas dos sapatos, com o sentido consolado do dever perante a integridade e infalibilidade dos seus propósitos. Durante dois dias desfrutaram da vida e das pessoas, o mal com encolheres de ombros despreocupados como convém, e o bem com a alegria que procuravam e encontravam a cada instante em tudo. Com públicos cada vez mais pobres mas não menos numerosos do que os anteriores, não lhes faltou comida e transporte. Guardaram as maçãs, símbolo do retorno imediato do objectivo a atingir, para comer em puré cozinhado à luz da lua. Queriam adormecer e acordar a ver e ouvir o circo ao longe para, revigorados, serem bem transportados a uma nova realidade. No entendimento de Martelo, onde seria feliz com Sílvia e os cães e o anão poderiam viver confortavelmente!
Ao longo da viagem estiveram sempre acompanhados da imagem do circo, uma miragem que começava com o som da mistura de músicas e rumores de barulho de gente; depois vários cheiros entravam-lhes pelas narinas, cheiros a carnes grelhadas e a farturas oleosas; o cheiro da impaciência dos animais enjaulados, quais artistas prontos a brilhar no palco gigante iluminado por uma lua em foco, sempre gorda e cheia, a espelhar toda a abundância de felicidade. Viam as tendas coloridas que brilhavam ao som dos tambores dos shows que começavam pela manhã e que só acabavam a horas bastante tardias. As palmas das pessoas que vinham de longe em família e daquelas que gostavam de levar mais frequentemente aquela injecção de feliz utopia, anunciavam a cada vez maior proximidade. Com a ajuda das boleias que apanharam, conseguiram chegar depressa ao cais, que os atravessaria pelo mar que separava os dois continentes. Não se aperceberam que para isso iriam precisar de dinheiro, pois acreditavam que o maior circo do mundo devia ter travessia mais do que assegurada, fluxo de felicidade e energia sem o qual o circo não poderia existir. Na última boleia que apanharam, o homem que conduzia dissera-lhes que havia muitos barcos. Imaginaram a margem repleta de barcas à vela, cheias de balões, a deslizar sobre o mar de intenso azul, tudo muito brilhante e colorido.

Ainda não tinham descido da carrinha e já viam, não pequenos barquitos mas enormes navios e a actividade de um ror de gente.
- Este é o caminho para Jaffar, boa viagem!, despedira-se o condutor, seguindo sorridente para a fila dos carros que iam fazer a travessia.
- Não posso acreditar, Martelo, isto ainda é muito maior do que aquilo que estávamos à espera!...
- Dá-me as moedas que tens nos bolsos, Sebastião, deve ser preciso pagar o barco.
- Pagar?!?
- Sim, isto não deve estar a cargo do circo, que ainda é longe, temos que pagar... Tomaram os seus lugares na longa fila, tendo logo aproveitado para sacar dos balões. Depressa encheram tudo à volta da cor elástica dos balões, fazendo cães e coelhos, homenzinhos gorduchos e muitas flores. Com isto, conseguiram juntar mais algumas moedas, mas quando chegou a sua vez de comprar os bilhetes perceberam que não tinham dinheiro suficiente para aquele barco. Tiveram que esperar por outro, mais velho e mais lento, por isso mais barato. Tendo conseguido embarcar, nada parecia diminuir a sua euforia, afinal, todas aquelas pessoas tinham contribuído para que, também eles, pudessem chegar ao circo! Ao cruzar o estreito cheio de cheiro a mar, tiveram a certeza de que podiam respirar com confiança, apaziguada que estava a razão. Nesse fim de dia, as horas sossegadas tornaram mais presente a saudade de Sílvia. Vinha-lhes ao pensamento a sua imagem, com o anão, em pé lado a lado, ele metade dela em altura mas o dobro em largura, a olhar para eles enquanto estes lhes dirigiram um último encolher de ombros feliz de narizes encarnados, acenando com a mão direita. Sílvia e o anão viram-nos afastarem-se com os cães a saltitar ao ritmo do seu passo logo atrás.
- Não pensem que eles vos vão levar!, malditos cães, ainda ficam aqui a pedir de comer, dissera Sílvia cheia de raiva e de inveja, pois ela não escondia os maus sentimentos, apenas os bons que não tinha, apesar de naquele momento o seu sentimento mais flagrante ser o da dor da solidão.
Nas horas a seguir à partida dos palhaços, Sílvia refugiou-se sozinha na sua velha caravana, no costume das lágrimas não silenciosas e dos gritos de morte. O anão ficou na rua, sentado no chão, encostado a uma pedra, ladeado pelos cães, acompanhado por uma garrafa de vinho barata. Durante algumas horas sem parar de ladrar, até os cães ficaram perplexos com a histeria de Sílvia, tanto que acabaram por se remeter a um silêncio derrotado. O anão não se importava assim tanto com aquela barulheira; ela era assim há já tanto tempo que só estranharia dela um comportamento normal. Era a música da gritaria héctica de Sílvia que o acompanhava, e também ele a chorar, sem medo, a vida.
A certo momento, deixou de se ouvir Sílvia; quando cessaram de a ouvir, os cães começaram um latindo agoniante, sucessivamente ritmado, repercutindo a vida que anda de mão-em-mão, na mão de todos e não na de a quem pertence.
A que ponto pode alguém ser atacado desta maneira, a que ponto, a que ponto, repetia o anão em voz alta, assemelhando-se a Sílvia a perder as estribeiras, quando possuída por si mesma.
- a que ponto, berrava, a que ponto... até quando?, desgraçado abanava a cabeça, baixando-a perante a solenidade fúnebre e inapelável dos uivos caninos.
- A que ponto vai a desgraça, até quando seremos escravos deste abraço mal dado da vida?!?

Mil imagens percorriam a pequena grande cabeça do anão, a sua solidão em miniatura era sequenciada em diapositivos, os quais se forçava a ver. Via as mulheres que tinha amado e que nunca souberam que alguém como aquele anão as desejava tão ardentemente; via-se velho e literalmente sem nada; via-se acabar mas não sabia como. Não era como se morresse, mas como se ficasse para sempre ali com o desespero e o vinho, ou sem vinho, pior ainda. Sem nada do que é material, uma casa, um emprego, e sem um corpo que lhe permitisse ter um outro tipo de vida que não o exibir, justamente, esse corpo, sem amor, sem amor, sem amor e sem qualquer amor, nem a morte poderia salvá-lo de alguma vez ter sido aquilo que era. Este invólucro defeituoso estava-lhe gravado na alma para a eternidade.

No dia seguinte o anão acordou com o sol já alto, não se ouvia ninguém e os cães tinham-se ido embora. Deviam ter percebido que aquele sítio estava cheio de morte. Levantou-se, ainda embriagado, dirigindo-se, como se soubesse o que o esperava, à caravana.

Martelo e Sebastião prosseguiam a viagem já há dois dias, após o desembarque. Apanhar boleia não foi assim tão difícil, mas pior arranjar o que comer. Não faltavam as crianças e sobravam ainda as maçãs, já moles, para jantarem quando chegasse a noite. Tinham que chegar nessa noite, tomar banho nalgum riacho que encontrassem e fazer os preparativos da sua entrada no circo, altura em que comeriam, finalmente, as maçãs.
- Deixa-me dizer-te, Se-bas-ti-ão, que já me cheira. 'Tás a ver aqui esta montanha? - disse, com o dedo amarelado sobre o mapa,- Esta montanha que faz um círculo, lá dentro é o circo, 'tás a ver?
De acordo com o mapa, estavam realmente muito perto, mas estranhamente, ninguém parecia conhecer o circo, todas as pessoas diziam que era aquele o caminho mas depois tentavam dizer-lhes alguma coisa que não percebiam. Os dois últimos homens que lhes haviam dado boleia tinham repetido, várias vezes, que não havia circo, o que quereriam dizer com isso? Impossível, o circo não podia estar fechado! O mapa era recente, não havia que duvidar da informação que ele continha, concluíram, dispostos a seguir em frente.
Caminharam, corajosamente, o percurso pedregoso que se seguiu pelo deserto, passaram várias povoações cor de barro, onde as pessoas se riam deles mas pouco ou nada diziam. Já não acreditavam em nada do que viam, nada parecia ser real. Sem querer ganhar um tom obstinado, pois consideravam o seu objectivo perfeitamente exequível, não quiseram averiguar a razão de toda a gente lhes dizer algo que, mesmo naquele poliglotismo atrapalhado, apontava, no mínimo, para que o circo estivesse fechado. A única realidade que lhes dizia respeito era o circo, nada mais, só com isso poderiam tudo o resto, sabiam-no sem o saberem, pois para eles sempre tudo tinha solução. Esforçaram-se por acelerar o passo fatigado.
Finalmente, tinham parado com a conversa ininterrupta sobre o circo e os planos de felicidade, o calor agudo e o pó da terra tinha-lhes atacado a garganta, Sebastião tossia sem conseguir parar.
Ao cair da noite e com o avanço da boleia de um jeep, cujos ocupantes tentaram seriamente fazê-los voltar para trás, o ar estava muito mais fresco, já deviam estar a chegar perto do circo, um oásis, só podia ser, no meio das montanhas! Resistindo estoicamente a comer as maçãs, deixaram de ter fome. O estômago indisposto provocava-lhes náuseas e na dor de cabeça impossível vinha-lhes ao pensamento a imagem de Sílvia e do anão, em pé lado a lado, ele metade dela em altura mas o dobro em largura, a olhar para eles enquanto eles lhes dirigiram um último encolher de ombros feliz de narizes encarnados, acenando com a mão direita.

26/08/2007

Abraçada I

Mais-que-perfeito, Martelo e Sebastião viviam felizes, felizes por ver a felicidade a cada milímetro do seu olhar. Profissão tornada vida não o era porque escolhida, tanto um como o outro já tinham nascido palhaços.

Apesar de serem cem por cento palhaços, não eram palhaços normais. Talvez fossem precisamente esses cem por cento que os diferenciavam dos outros palhaços. O que será da prudência?

Sílvia era uma mulher palhaço e vivia abraçada pela vida. O seu espírito não era livre, e tinha a noção disso. O sufoco desse aperto era frequentemente atirado em pontapés aos cães que julgavam contribuir com companhia e guarda para o acampamento, em troca de restos diários de comida que lhes impedia de cairem abaixo do ponto em que morreriam de fome.

Passava muito tempo calada e lacrimosa o que preocupava os dois palhaços, principalmente Martelo, seu irmão protector e seu hipotético amante, acaso ela amasse além do sexo e do desespero. Mas quando desatava a falar era pior ainda, emitia opiniões e tecia sentenças a uma velocidade impressionante e com uma pronunciação silábica que mantinha intacta a perceptibilidade dos seus quase discursos. Não era mesmo significativo ser ouvida porque não havia nunca nada a fazer senão encolher os ombros e isso até era um dos principais trejeitos dos dois palhaços, seguido de um olhar que vai rapidamente do desiludido ou triste ao novamente feliz.

Sílvia não tinha capacidade para concluir assim os seus actos. Aquilo que normalmente levava a plateia a rir-se, quando actuava, tinha vindo a tornar-se, com os anos e consequente agudização da sua soma de descrenças, num espectáculo carregado de bizarraria e de verdade.

Subia ao palco ou, mesmo na rua, com espectadores ocasionais, entrando sempre numa caminhada nervosa e demasiado inclinada para frente nenhuma, que levava nunca a lado algum. Entre dois ou três destes andamentos despropositados, tropeçava em alguma coisa que a atirava, ridícula pela fúria não justificada que a deixava em dívida, para o conforto efémero da dureza do chão. Havia que levantar-se vezes e vezes sem conta, podendo mostrar, eventualmente, a alguém que estranhamente a percebesse, que aquilo não era um circo mas a vida de todos nós.

Os esgares de troça da audiência seguidos de uma série apenas de gargalhadas eufóricas eram, para ela, compensados com o escárnio que cada um dirigia a si mesmo sem o saber, pois muitos são os que vão andando pela vida com a única força motora do tropeção, da gastura de joelhos consecutivamente esfolados e o cansaço da impossibilidade das palavras e dos gestos, mesmo que não dêem por isso. Ria-se e gozava para dentro quando na curta representação, depois de ter sido burlada pelo anão tergiversador, tão torto que não andava mas ondulava, o via regozijar-se com a conta salivada nas sua mãos de três dedos das notas de Euro cheias de cansaço e de mais um bocado de paciência para a vida que lhe havia extorquido.

O dente de ouro bocado de vidro brilhante que reluzia com as luzes do show colocado junto dos outros adereços em cima da mesa e o anão a dizer a Sílvia, como no fim de todas as noites, que um dia teria dinheiro para implantar os dentes que lhe faltam e os que ainda lhe doem. Ela com a cabeça deitada na mesma mesa sobre os braços, com os três dedos do anão a tirar-lhe, cheios de precisão e de paciência os nós do cabelo, companheiro de compreensão de lágrimas cheias de maquilhagem.

Perto dos seus espectáculos e dos seus longos silêncios, os seus quase discursos (porque não careciam de destinatário) acabavam por ser um luxo para quem gostava dela e queria tê-la por perto, Martelo e Sebastião, o anão, os cães não certamente. Era como se voltasse a si, à razão, por momentos, para depois alucinar novamente desse abraço mal dado da vida. A cada interregno de silêncio de lágrimas quebrado apenas por choros irritantes, parecia que se levantava e voltava ao amargo de si, às palavras atiradas como facas à traição, sem respeito, sem razão e cheias dela. A mesma desconsideração tinha-lhe sido arremessada pela vida vezes incontáveis, brutais pontapés de desespero, sem compaixão e sem culpa a quem atingir. Um novo ciclo fechava-se como sempre, com ela a lavar, com a sua culpa por ter tentando retaliar a culpa anónima da vida, os pecados da alma. Passava dias e dias a escova-la meticulosamente com o seu pensamento em silêncio e prometendo-se ser melhor, para desembocar depois em nova histeria.

Martelo e Sebastião faziam grande uso da razão, mas faziam pouco dela. Queriam lá saber da razão para alguma coisa! Sabiam que ela estava lá, dócil, sempre a dizer-lhes, enformada nas suas almas de palhaço, o que fazer, mas mesmo assim só em raras vezes e circunstâncias especiais lhe davam ouvidos. Não era como a razão impossível de Sílvia. Essa, sempre a exigir ser ouvida no volume máximo, conheciam-na tão pouco quanto Sílvia a liberdade. Sabiam esperar que as coisas, sinónimos consequentes de felicidade, fossem ter com eles, enquanto estavam, deliciados, a experimentar a vida em todos os seus dias.

Começavam, no entanto, a sentir algum cansaço de estarem há imenso tempo no mesmo sítio para que conseguissem continuar a ver a felicidade a cada pedra, a cada árvore que não existia, kilómetros e kilómetros cúbicos de cascalho e de ar quente estavam a esgotar o potencial infinito que os dois inicialmente tinham diagnosticado àquele sítio na berma do inóspito: "Se não tivermos pessoas, temos pedras, que ao quase morrerem de riso com as nossas actuações se irão transformar em flores e, com estas, virão as pessoas, as pessoas com crianças sorridentes e também com lágrimas, que serão depressa apagadas", tinham dito uns dias depois de ali chegarem, concluindo a constatação atrasada e quase surda da razão de que ali não passava quase ninguém, seguindo-se o tal encolher de ombros a crescer em direcção ao brilho do olhar feliz!

Após numerosos encolher de ombros, perceberam pela voz insistente da razão adiada de palhaço, que tinham que mudar-se novamente. O Norte tinha-se tornado impossível pela falta de crianças cujo sorriso pudesse ter origem na inocência das piadas de um palhaço e a modernização dos espectáculos da concorrência fazia com que os recursos da improvisação se tornassem cada vez menos atractivos. De acordo, decidiram continuar o seu passeio nómada pela vida, com a esperança quase certa de encontrar um publico à sua semelhança, com crianças que os fariam continuar a sorrir sempre.

Partiram para Sul deixando Sílvia desconcertada a ponto de ser abraçada por sentimentos que habitualmente não tinha, tais como o amor e dúvidas em relação ao seu próprio cepticismo, mas com uma insegurança e sentimento de abandono que já lhe eram costume. Quanto ao anão, ficou na esperança prometida de que, a haver um bom circo para trabalhar, seria de alguma maneira chamado pelos palhaços. Tinham-lhe dito, já Sílvia tinha adormecido no choro, que viram no mapa o nome de um circo que devia ser muito grande, onde haveria lugar para todos os artistas, um lugar com muita gente pois se o nome até vinha no mapa! O anão teria ido com eles, não fosse o seu corpo mal enformado...

14/06/2007

Sozinha

Ficou sozinha na rua, tinha abusado. Não porque não tivesse razão em sofrer, em exigir que ele não fosse, que não a deixásse, que não a deixásse assim.
Mostrou-lhe toda a sua dor, esse horror como se sabendo que nem todas as suas lágrimas o fariam recuar. Gestos das mãos, dos músculos todos da face e pescoço, as variações dos tons de voz, diferentes tipos de olhares a espelhar o vermelho dessa dor,
Inútil, o outro lado absorvia tudo, mas não cedia.
Quando é assim não se quer acreditar, não se aceita. Julga-se ter a certeza de que houve amor. Ou seria apenas do seu lado?...
Não conseguiu vê-lo ir embora.
Quando o sofrimento é desta cor, encontram-se infinitas possibilidades de sucesso no que quer que seja, acaso haja tempo para isso.
Desatou a correr atrás dele, sem o chamar. Ainda conseguia vê-lo ao longe, bem longe, faz com que as suas pernas o alcancem a bem de si mesma. Não quer saber se é tão difícil quanto fazer o tempo voltar para trás.
Sentia a dureza do asfalto a cada pé que atirava com o chão para trás, cada gole de respiração molhada e impossível e via-o cada vez mais perto.
!!!Estou quase!!!
Ele vira-se para trás com o som daquela corrida irracional, a surpresa sufoca-o mas reage, começa a correr também a beira da linha de combóio. Tem que atravessar para o outro lado para despistá-la. Preserverante, persegue-o já furiosa, ele olha para trás e decide saltar para a linha. Atravessou-a e subiu do outro lado. Sem sequer imaginar se seria capaz de sair de lá de dentro, ela faz o mesmo.

Ela

Sabemos muitos de nós da dimensão do sofrimento, lá dentro.
Sofrimento pelo amor, sofrimento adentro escava-se um túnel onde se viaja a alta velocidade e que não pára.

Sofrimento pela morte, bruto pára no tempo e fica estático, nem sequer inerte.
O primeiro leva tempo a interiorizar e leva a que a todo o tempo se puxe no sentido oposto, para contrariá-lo;
O segundo atinge-nos com a inexorabilidade do raio disparado pelas nuvens em choque com a terra.