19/01/2008

Não Esperes Que É Em Vão

não esperes por mim,
sabes que não irei
não esperes que é em vão

por vezes pensamos desprovidos
deixamo-nos repousar descalços perante
a contingência da condição de ser humano

quis viajar ao teu coração
mas não mais de lá voltei
não esperes que é em vão
perdi-me por lá e não regressei

não esperes por mim
pois não sabes onde foi que me perdi
não esperes que é em vão

erros sobre repetidos erros
inconsciência decidida em consciência
pensamos despidos de razão

quis que soubesses que estava ali
leviana a tua desatenção
agora sabes que não irei
mas não que foi lá que fiquei.

08/01/2008

Sem Cautela

Sem cautela sinto tudo estilhaçar-se à minha volta...
Não esperava ouvir aquele concerto de rebentamento.
Mas eu estou quente e protegida dos cacos,
de pé sobre mim, sobre os meus dois troncos fiáveis,
os meus princípios e valores,
e sobre um pouco mais que nada, o quanto basta.

Os vidros não me tocam,
implodiram, por certo, alguém
dando-me sorrisos e fogo de artifício.

O movimento chegou quando tinha que chegar,
podia ter levado muito mais horas ou dias do que o tempo,
mas circunscreveu-se a um breve momento,
à consciência,
à resolução das variações,
vislumbre de verdade não passageiro.

A vida leva tempo a criar e a destruir.
Pensamos que é naquele momento,
no do rebentamento que nos atinge,
que os ciclos se abrem e fecham,
onde podemos entrar e sair
como se já soubéssemos como é
porque a história se repete.

Mas esses não momentos têm tempo de maturação,
para tudo há um início, um meio (com ou sem auge) e um fim,
parecem-nos um momento quando vemos que o ciclo passou por nós,
quando o vemos de costas,
mas aquele espectáculo de estilhaços de vidro definitivos de alguém
Foi o verdadeiro momento de conclusão, o final fecho do ciclo.

02/01/2008

Cuide-se Quem Amou

Olhei aquela imagem
que tudo significava pra mim
de costas de cabelo negro e crespo
mãos cor de marfim.

Disse-me que se lançaria à água
fria do mês de Janeiro
com calma imensa, sem mágoa
o corpo por inteiro.

Vi-a do cimo do monte
cheio de cheiro a alecrim
doce embalo donde
se levou até ao fim.

Não procurei detê-la
sua vontade era concreta
Fiquei apenas a vê-la
nadar para a morte certa

Assim contou a sua história
finda como os passos em frente
e guardei-a na memória
para contar a toda a gente.

Cuide-se quem amou,
Cuide-se quem amou.