30/11/2008

CAI A NOITE DE INVERNO



Cai a noite de Inverno e as pessoas andam perdidas nos caminhos dos seus destinos, largadas ao ruído das sirenes e à destreza e ao estorvo do trânsito. Eu mais uma alma de entre as outras quebrantas pelo ar frio que avassala a malha larga, cautelosas pelo escorregadiço do pavimento traiçoeiro.

Deslocam-se, criaturas intrincadas, que cruzam e se determinam em busca de calar as suas misérias, esquecidas dos sonhos claros de futuro, enquanto apenas as luzes dos carros e os reclamos luminosos diferenciam o cenário do som do alcatrão encharcado, pisado pelos sapatos e trilhado pelas rodas.

Onde estás neste instante em que me diluo na imensidão da cidade de praças e tu és a única certeza no mundo em que me carrego ameia?

Tento ver-te através dos fumos baixos e das caras fechadas e não te encontrando nas ruas gastas por onde passo, onde tudo o que devia ser livre já foi vendido, suplico ao céu triste o reduto último. E ele responde-me através da ausência de sinais que não, e que é mesmo assim. Cedo-lhe o meu vácuo até que a idade passada e as fantasias abandonadas me façam deixar a fé, tão remota como a causa do mistério que me baixa a nuca condenada e me corta o pescoço ainda virgem.
§

09/11/2008

Catarina


O seu perfume, algo que Deus nos quis deixar, como é tão bela, bela como o amor que governa o mundo,
- e eu que não fui digno
do belo amor, eu que não soube esperar…
Haverá um tempo para cada coisa nesta vida?
Ou há coisas para as quais nunca chega o tempo, ou que ficaram nele perdidas, por acabar?
Aperto as mãos como se fosse agarra-la, sinto-a escapar na corrente que a arrastou, e eu tão longe e a querê-la minha, Catarina.