14/06/2007

Sozinha

Ficou sozinha na rua, tinha abusado. Não porque não tivesse razão em sofrer, em exigir que ele não fosse, que não a deixásse, que não a deixásse assim.
Mostrou-lhe toda a sua dor, esse horror como se sabendo que nem todas as suas lágrimas o fariam recuar. Gestos das mãos, dos músculos todos da face e pescoço, as variações dos tons de voz, diferentes tipos de olhares a espelhar o vermelho dessa dor,
Inútil, o outro lado absorvia tudo, mas não cedia.
Quando é assim não se quer acreditar, não se aceita. Julga-se ter a certeza de que houve amor. Ou seria apenas do seu lado?...
Não conseguiu vê-lo ir embora.
Quando o sofrimento é desta cor, encontram-se infinitas possibilidades de sucesso no que quer que seja, acaso haja tempo para isso.
Desatou a correr atrás dele, sem o chamar. Ainda conseguia vê-lo ao longe, bem longe, faz com que as suas pernas o alcancem a bem de si mesma. Não quer saber se é tão difícil quanto fazer o tempo voltar para trás.
Sentia a dureza do asfalto a cada pé que atirava com o chão para trás, cada gole de respiração molhada e impossível e via-o cada vez mais perto.
!!!Estou quase!!!
Ele vira-se para trás com o som daquela corrida irracional, a surpresa sufoca-o mas reage, começa a correr também a beira da linha de combóio. Tem que atravessar para o outro lado para despistá-la. Preserverante, persegue-o já furiosa, ele olha para trás e decide saltar para a linha. Atravessou-a e subiu do outro lado. Sem sequer imaginar se seria capaz de sair de lá de dentro, ela faz o mesmo.

Ela

Sabemos muitos de nós da dimensão do sofrimento, lá dentro.
Sofrimento pelo amor, sofrimento adentro escava-se um túnel onde se viaja a alta velocidade e que não pára.

Sofrimento pela morte, bruto pára no tempo e fica estático, nem sequer inerte.
O primeiro leva tempo a interiorizar e leva a que a todo o tempo se puxe no sentido oposto, para contrariá-lo;
O segundo atinge-nos com a inexorabilidade do raio disparado pelas nuvens em choque com a terra.