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17/09/2008

Chora as Minhas Lágrimas Comigo


Vem aqui olhar pra mim,
achega-te e vê o meu pranto.
São lágrimas que podem não ter fim,
que me envolvem como um manto.

Deixa que brotem, por maior delírio,
revelarem tudo o que têm a mostrar.
Percorre comigo o caminho de martírio
esta provação pra me libertar.

Não quero que as seques, estarás a desprezá-las,
não as encerres pra que o meu coração não as veja.
Nao queiras desse modo mitigá-las
e fazer-me alguém que eu não seja.

Também não as cales num consolo de basta
cego do vácuo em que se tornou o meu peito
compreende a sua raíz no calo profundo
que me faz ficar de fora do mundo.

Chora as minhas lágrimas comigo,
tal pão ou saliva que partilhamos.
Estende-me a protecção do teu abrigo,
diz-me que é juntos que lutamos.

E por favor não me digas que tenho que ter coragem
de pará-las e seguir viagem
que me esqueço dos mortos que não deixo
embarcar prá outra margem.

É certo que assim é
que não os deixo partir de mim
mas eles também querem saber
como são os dias que estou a viver.

Pelo cais vão ficando
a ver as barcas sumir-se na penumbra
Já apenas estão esperando
pela minha alma moribunda.

Peço-te outra vez, Olha pra mim!
Aprende a escutar sem que te fale,
não digas que cale
são os compassos com que nos marcamos,
que nos vestirão até ao fim.

§
Para todos os que não conseguem despedir-se dos seus mortos

18/08/2008

Chão de Fogo

Era árvore à chuva acorrentada a um chão de fogo,

a queimar as folhas, a secar os prantos

sem pernas ou pés, apenas um tronco longo

que lograssem procurar-te por todos os cantos

os musgos e as heras p'ra me esconder.


Esperei por ti estavam já as flores secas,

passaram as chuvas e veio o gelo,

fiquei aqui a ver correr as águas frescas

e as andorinhas a dizer

o meu corpo não quis acolher.


Fui nuvem negra em terra onde nunca chove

arruinando anseios, recusando preces rogadas
fui Cristo numa cruz que não se move
nenúfar num rio de águas paradas
com estas chagas de ti a doer.

os meus membros murchos não quiseram senão consolar-se num abraço teu,
e este coração amargurado não se aquieta sem o teu amor, não pode o fogo extingui-lo nem o correr do tempo lhe há-de bastar.

na falta do teu o meu corpo foi-se retorcendo, um tronco de árvore adoecida de morte, cada vez mais fino a perder a seiva, a evaporar-se até ficar vazio. Uma morte sem morte verificada no tempo, no segundo fatídico, não,

as árvores não morrem como os homens, vão morrendo e ao aproximar-se o fim pode estar-se durante muito tempo sem saber se estão vivas ou mortas, sabendo-se apenas que estão condenadas.

A sua alma vai-se sumindo enfim com o passar dos dias e ninguém dará por isso, mesmo que o vento assobie nos troncos nús ou que alguém tropece nas suas cascas ocas.


§

25/04/2008

You Have No Secrets To Me Anymore

You have no secrets to me anymore
If you came from a world of stars and bells
to a world of hell
too bad you didn't tell and lead me there aswell.

You have no secrets to me anymore
secrets of the one so greater and sublime
in fact not so digne
I'm not sorry if you're not mine.

You have no secrets to me anymore
You were the one who was on wait
sorry to interrupt you as a fake
line that isn't even written in my fate...

04/04/2008

Que Se Te Não Chega a Primavera

- Não te agastes
que não te chega a Primavera -

podem
os
pássaros voar

o meu cabelo cortar

os meus membros paralisar.


Mas a ti, amor, não te podem levar.


- Não te agastes
que assim não te chega a Primavera -

podem as núvens
chover até me afogar

ou o calor secar
o ar de respirar

a terra partir
e tudo desandar.


Não sei viver se o amor não me voltar.


- Não te agastes,
não se te chega a Primavera,

se te julgas
rã nascida do fungo no sapal

junco dobrado
a tantos outros igual
árvore ameaçada
pelo ronco do trovão
ou pássaro na lâmina
do bico do gavião,

não te agastes
que se te não chega a Primavera.

Sê fértil, abraça todos os filhos do teu largo
tal Mãe cheia de graça
raínha humilde de um reino de amor em ti fundado.

Sê amparo louvado, acede a todos os pedidos
filha, amiga, irmã,
serás
noiva, mulher, avó

Sê reduto de paz!

Mas não te agastes
que pode ser breve a Primavera!

25/03/2008

Larguetto

Esquece a alma crispada
a coisa inacabada
vem beber a vida fresca!

Deixa essa caixa secreta de desamor e dúvida
vem andar sobre as nuvens fofas
que serás levado a braços de passos subtis
- prometo -
que nem tanto nem sangue pode custar descobrir a vida.

Nuvens de patamares e entremeios diversos
coloridas a cada segundo pela luz que faça
dando a sombras, olhares e cores
variação infinita, coisas de todas as coisas.

A descoberta última será revelada quando for por cada um escutada

Para tal tenho os meus dois troncos consistentes
bem firmes na terra
as suas raízes, a história e a mercê.

Para tal conservo a alma aberta
a observar o mundo
as regras, os porquês e as mercês.


Vem beber a vida fresca,
e não chores a alma crispada
a coisa inacabada.

24/02/2008

É a Selva, Meu Amor!

Isto...
Isto é a selva, meu amor!
Somos seus pais, seus filhos,
Seus órfãos,
Seus instrumentos e o seu fim,
ainda que estejamos fora do seu objectivo
Principal,
- talvez por esse mesmo motivo.

É isto entre mim e ti
entre quase todos
Nós
Somos produto do abandono
do desescrúpulo
da intrincância frustrada dos galhos da grande árvore
da condução negligente porque mercê
da selva, meu amor!...

16/02/2008

Miséria

Sobe alto,
miséria
que de quanto mais alto te observas
mais te auto-compadeces

Podias ter escolhido a vida bela.

Ligeira e fria
subversiva miséria
não venhas aqui alargar teu espaço
entrego-te ao ontem não ao passado

Não és mais do que se diz de quem nada tem.

Desce ao chão, miséria
podes purgar-te, mas serás engolida pela terra
bato-te três vezes com os pés,
Ai miséria, miséria,
sou eu quem te abre e te fecha a porta
quem te guarda a chave da despedida

Condeno-te a ficares do lado de fora.