08/01/2008

Sem Cautela

Sem cautela sinto tudo estilhaçar-se à minha volta...
Não esperava ouvir aquele concerto de rebentamento.
Mas eu estou quente e protegida dos cacos,
de pé sobre mim, sobre os meus dois troncos fiáveis,
os meus princípios e valores,
e sobre um pouco mais que nada, o quanto basta.

Os vidros não me tocam,
implodiram, por certo, alguém
dando-me sorrisos e fogo de artifício.

O movimento chegou quando tinha que chegar,
podia ter levado muito mais horas ou dias do que o tempo,
mas circunscreveu-se a um breve momento,
à consciência,
à resolução das variações,
vislumbre de verdade não passageiro.

A vida leva tempo a criar e a destruir.
Pensamos que é naquele momento,
no do rebentamento que nos atinge,
que os ciclos se abrem e fecham,
onde podemos entrar e sair
como se já soubéssemos como é
porque a história se repete.

Mas esses não momentos têm tempo de maturação,
para tudo há um início, um meio (com ou sem auge) e um fim,
parecem-nos um momento quando vemos que o ciclo passou por nós,
quando o vemos de costas,
mas aquele espectáculo de estilhaços de vidro definitivos de alguém
Foi o verdadeiro momento de conclusão, o final fecho do ciclo.

3 comentários:

Paulo Miguel Torrezão disse...

Não consigo deixar de ver uma referência à morte, ao encerramento do ciclo que é a vida. Mas encerrar-te por aí o poema é completamente errado. Parece-me que há uma espécie de divisão da vida, em ciclos que terminam com esse "rebentamento que nos atinge".
Em suma: todos somos diferentes a cada momento. A cada instante fecha-se um ciclo, embora por vezes não o consigamos notar. Como estrelas, podemos encerrar um ciclo grandiosamente, numa supernova fenomenal. Ainda como as estrelas, essa supernova é sempre o início de algo novo…
Fujo agora para um meandro literário muito obscuro: a intenção do autor! Essa, só tu a poderás afirmar. Posso, porém, dizer-te com toda a propriedade a minha interpretação (mais ou menos errada, se as há): A força que apresentas (“Mas eu estou quente e protegida dos cacos, / de pé sobre mim, sobre os meus dois troncos fiáveis, / os meus princípios e valores, / e sobre um pouco mais que nada, o quanto basta.”) perante um fechar de ciclo inesperado, (“Sem cautela sinto tudo estilhaçar-se à minha volta... / Não esperava ouvir aquele concerto de rebentamento.”) faz-me pensar que, resistindo assim, tudo nos é possível, em especial tendo “alguém / dando-me sorrisos e fogo-de-artifício.” Acaba por ser um poema que eleva o espírito, a meu ver…
Ou então não quiseste dizer nada disto. Talvez amanhã eu também já não interprete nada assim. O que é certo é que este poema me permitiu um outro encerrar (e consequente abrir) de “ciclo”.

Obrigado.

Paulo Miguel Torrezão

Stella Nijinsky disse...

Oi Paulo,

Fico sempre sensibilizada quando alguém tem trabalho ao fazer comentários ao que escrevo, ainda por cima, deste nível!
Há muita morte no meu blogue, e até pode ser que algo tenha morrido ao fechar-se o ciclo a que me referi, mas não foi a vida...
Mas não estiveste longe, é como dizes, o meandro literário obscuro... a intenção do autor...
Sim, normalmente os ciclos fecham-se quando já nem damos por eles, mas desta vez, senti mesmo esse rebentamento, talvez um ciclo fechado à força e eu estou a inverter o que eu própria disse...
Anyway, o teu comentário está delicioso, o meu post é que talvez não!
Um pequeno reparo, que torna as coisas mais amargas e retira a beleza que viste: "os vidros não me tocam, implodiram, por certo, alguém", aí está a morte, "aquele espectáculo de vidros definitivos de alguém".

Muito obrigada pelo teu comentário, mesmo!

Beijo, Stella

herético disse...

gostei muito desse "ecoar" dos cacos. ou dessa girândola de estilhaços de vidro...