15/09/2007

Abraçada II

Com as suas mochilas e uma tenda às costas, não precisavam de mais nada para prosseguir, trabalhavam em qualquer lugar e tinham consigo tudo aquilo que poderia fazer falta: narizes de palhaço, balões, os sorrisos de rugas já cravadas na pele e dois ou três quilos de maçãs vermelhas, oferecidas por um casal de espectadores de perto da terra de onde saíram.

- Quando chegarmos ao Circo, Sebastião, quando estivermos já mesmo a vê-lo, sentamo-nos para prepararmos a nossa entrada triunfante, para combinarmos os nossos melhores truques. Acho mesmo que só depois de descobrirmos qual o número a apresentar é que devíamos comer estas maçãs. Até lá, Sebastião, vamos ter que arranjar público!
- Bem, temos balões para ir até à China!


- Até à China, não sei, pois sei que lá há imensas crianças e os balões não iam chegar para todas. Até podiam mandar algumas 'pra cá! Ouvi dizer que não as querem todas acreditas nisto?

- Ora Martelo, isso é impossível! Acho que ninguém no mundo poderia sequer pensar em mandar os seus filhos embora de casa, disse parando por momentos a caminhada decidida que levavam.

- Não sei se isso é assim, mas mesmo que fossemos até à China, tenho a certeza que lá devem ter lojas onde se vendem balões!

Continuaram a andar com o Sol diagonal já a entrar-lhes por baixo das solas dos sapatos, com o sentido consolado do dever perante a integridade e infalibilidade dos seus propósitos. Durante dois dias desfrutaram da vida e das pessoas, o mal com encolheres de ombros despreocupados como convém, e o bem com a alegria que procuravam e encontravam a cada instante em tudo. Com públicos cada vez mais pobres mas não menos numerosos do que os anteriores, não lhes faltou comida e transporte. Guardaram as maçãs, símbolo do retorno imediato do objectivo a atingir, para comer em puré cozinhado à luz da lua. Queriam adormecer e acordar a ver e ouvir o circo ao longe para, revigorados, serem bem transportados a uma nova realidade. No entendimento de Martelo, onde seria feliz com Sílvia e os cães e o anão poderiam viver confortavelmente!
Ao longo da viagem estiveram sempre acompanhados da imagem do circo, uma miragem que começava com o som da mistura de músicas e rumores de barulho de gente; depois vários cheiros entravam-lhes pelas narinas, cheiros a carnes grelhadas e a farturas oleosas; o cheiro da impaciência dos animais enjaulados, quais artistas prontos a brilhar no palco gigante iluminado por uma lua em foco, sempre gorda e cheia, a espelhar toda a abundância de felicidade. Viam as tendas coloridas que brilhavam ao som dos tambores dos shows que começavam pela manhã e que só acabavam a horas bastante tardias. As palmas das pessoas que vinham de longe em família e daquelas que gostavam de levar mais frequentemente aquela injecção de feliz utopia, anunciavam a cada vez maior proximidade. Com a ajuda das boleias que apanharam, conseguiram chegar depressa ao cais, que os atravessaria pelo mar que separava os dois continentes. Não se aperceberam que para isso iriam precisar de dinheiro, pois acreditavam que o maior circo do mundo devia ter travessia mais do que assegurada, fluxo de felicidade e energia sem o qual o circo não poderia existir. Na última boleia que apanharam, o homem que conduzia dissera-lhes que havia muitos barcos. Imaginaram a margem repleta de barcas à vela, cheias de balões, a deslizar sobre o mar de intenso azul, tudo muito brilhante e colorido.

Ainda não tinham descido da carrinha e já viam, não pequenos barquitos mas enormes navios e a actividade de um ror de gente.
- Este é o caminho para Jaffar, boa viagem!, despedira-se o condutor, seguindo sorridente para a fila dos carros que iam fazer a travessia.
- Não posso acreditar, Martelo, isto ainda é muito maior do que aquilo que estávamos à espera!...
- Dá-me as moedas que tens nos bolsos, Sebastião, deve ser preciso pagar o barco.
- Pagar?!?
- Sim, isto não deve estar a cargo do circo, que ainda é longe, temos que pagar... Tomaram os seus lugares na longa fila, tendo logo aproveitado para sacar dos balões. Depressa encheram tudo à volta da cor elástica dos balões, fazendo cães e coelhos, homenzinhos gorduchos e muitas flores. Com isto, conseguiram juntar mais algumas moedas, mas quando chegou a sua vez de comprar os bilhetes perceberam que não tinham dinheiro suficiente para aquele barco. Tiveram que esperar por outro, mais velho e mais lento, por isso mais barato. Tendo conseguido embarcar, nada parecia diminuir a sua euforia, afinal, todas aquelas pessoas tinham contribuído para que, também eles, pudessem chegar ao circo! Ao cruzar o estreito cheio de cheiro a mar, tiveram a certeza de que podiam respirar com confiança, apaziguada que estava a razão. Nesse fim de dia, as horas sossegadas tornaram mais presente a saudade de Sílvia. Vinha-lhes ao pensamento a sua imagem, com o anão, em pé lado a lado, ele metade dela em altura mas o dobro em largura, a olhar para eles enquanto estes lhes dirigiram um último encolher de ombros feliz de narizes encarnados, acenando com a mão direita. Sílvia e o anão viram-nos afastarem-se com os cães a saltitar ao ritmo do seu passo logo atrás.
- Não pensem que eles vos vão levar!, malditos cães, ainda ficam aqui a pedir de comer, dissera Sílvia cheia de raiva e de inveja, pois ela não escondia os maus sentimentos, apenas os bons que não tinha, apesar de naquele momento o seu sentimento mais flagrante ser o da dor da solidão.
Nas horas a seguir à partida dos palhaços, Sílvia refugiou-se sozinha na sua velha caravana, no costume das lágrimas não silenciosas e dos gritos de morte. O anão ficou na rua, sentado no chão, encostado a uma pedra, ladeado pelos cães, acompanhado por uma garrafa de vinho barata. Durante algumas horas sem parar de ladrar, até os cães ficaram perplexos com a histeria de Sílvia, tanto que acabaram por se remeter a um silêncio derrotado. O anão não se importava assim tanto com aquela barulheira; ela era assim há já tanto tempo que só estranharia dela um comportamento normal. Era a música da gritaria héctica de Sílvia que o acompanhava, e também ele a chorar, sem medo, a vida.
A certo momento, deixou de se ouvir Sílvia; quando cessaram de a ouvir, os cães começaram um latindo agoniante, sucessivamente ritmado, repercutindo a vida que anda de mão-em-mão, na mão de todos e não na de a quem pertence.
A que ponto pode alguém ser atacado desta maneira, a que ponto, a que ponto, repetia o anão em voz alta, assemelhando-se a Sílvia a perder as estribeiras, quando possuída por si mesma.
- a que ponto, berrava, a que ponto... até quando?, desgraçado abanava a cabeça, baixando-a perante a solenidade fúnebre e inapelável dos uivos caninos.
- A que ponto vai a desgraça, até quando seremos escravos deste abraço mal dado da vida?!?

Mil imagens percorriam a pequena grande cabeça do anão, a sua solidão em miniatura era sequenciada em diapositivos, os quais se forçava a ver. Via as mulheres que tinha amado e que nunca souberam que alguém como aquele anão as desejava tão ardentemente; via-se velho e literalmente sem nada; via-se acabar mas não sabia como. Não era como se morresse, mas como se ficasse para sempre ali com o desespero e o vinho, ou sem vinho, pior ainda. Sem nada do que é material, uma casa, um emprego, e sem um corpo que lhe permitisse ter um outro tipo de vida que não o exibir, justamente, esse corpo, sem amor, sem amor, sem amor e sem qualquer amor, nem a morte poderia salvá-lo de alguma vez ter sido aquilo que era. Este invólucro defeituoso estava-lhe gravado na alma para a eternidade.

No dia seguinte o anão acordou com o sol já alto, não se ouvia ninguém e os cães tinham-se ido embora. Deviam ter percebido que aquele sítio estava cheio de morte. Levantou-se, ainda embriagado, dirigindo-se, como se soubesse o que o esperava, à caravana.

Martelo e Sebastião prosseguiam a viagem já há dois dias, após o desembarque. Apanhar boleia não foi assim tão difícil, mas pior arranjar o que comer. Não faltavam as crianças e sobravam ainda as maçãs, já moles, para jantarem quando chegasse a noite. Tinham que chegar nessa noite, tomar banho nalgum riacho que encontrassem e fazer os preparativos da sua entrada no circo, altura em que comeriam, finalmente, as maçãs.
- Deixa-me dizer-te, Se-bas-ti-ão, que já me cheira. 'Tás a ver aqui esta montanha? - disse, com o dedo amarelado sobre o mapa,- Esta montanha que faz um círculo, lá dentro é o circo, 'tás a ver?
De acordo com o mapa, estavam realmente muito perto, mas estranhamente, ninguém parecia conhecer o circo, todas as pessoas diziam que era aquele o caminho mas depois tentavam dizer-lhes alguma coisa que não percebiam. Os dois últimos homens que lhes haviam dado boleia tinham repetido, várias vezes, que não havia circo, o que quereriam dizer com isso? Impossível, o circo não podia estar fechado! O mapa era recente, não havia que duvidar da informação que ele continha, concluíram, dispostos a seguir em frente.
Caminharam, corajosamente, o percurso pedregoso que se seguiu pelo deserto, passaram várias povoações cor de barro, onde as pessoas se riam deles mas pouco ou nada diziam. Já não acreditavam em nada do que viam, nada parecia ser real. Sem querer ganhar um tom obstinado, pois consideravam o seu objectivo perfeitamente exequível, não quiseram averiguar a razão de toda a gente lhes dizer algo que, mesmo naquele poliglotismo atrapalhado, apontava, no mínimo, para que o circo estivesse fechado. A única realidade que lhes dizia respeito era o circo, nada mais, só com isso poderiam tudo o resto, sabiam-no sem o saberem, pois para eles sempre tudo tinha solução. Esforçaram-se por acelerar o passo fatigado.
Finalmente, tinham parado com a conversa ininterrupta sobre o circo e os planos de felicidade, o calor agudo e o pó da terra tinha-lhes atacado a garganta, Sebastião tossia sem conseguir parar.
Ao cair da noite e com o avanço da boleia de um jeep, cujos ocupantes tentaram seriamente fazê-los voltar para trás, o ar estava muito mais fresco, já deviam estar a chegar perto do circo, um oásis, só podia ser, no meio das montanhas! Resistindo estoicamente a comer as maçãs, deixaram de ter fome. O estômago indisposto provocava-lhes náuseas e na dor de cabeça impossível vinha-lhes ao pensamento a imagem de Sílvia e do anão, em pé lado a lado, ele metade dela em altura mas o dobro em largura, a olhar para eles enquanto eles lhes dirigiram um último encolher de ombros feliz de narizes encarnados, acenando com a mão direita.

4 comentários:

vash disse...

Olá Stella!

Antes de mais quero só esclarecer algo que apenas notei com o teu comentário, o meu poema tem um erro.
Não é suposto ser "terna" mas sim "eterna" a obsessão. Dito isto nada muda porque há erros que são bem-vindos e
este é um deles [não sei porquê achei que devia dizer isto... são coisas minhas] =)

Bem passando a coisas sérias tenho-te a dizer que isto é material para livro, não estou a falar da estória [que é boa]
mas da tua escrita. Eu bem sei que já disse isto, mas é a verdade. Pessoalmente acho que és das pessoas que melhor escreve
no universo bloguístico que conheço [isto não diz lá grande coisa mas ok, curto a tua escrita =p].

A estória é muito boa verdade seja dita, gosto dos caminhos diferentes que os personagens tomaram.
Uns foram em busca do seu sonho, não parando por nada, resistindo sempre aos numerosos obstáculos com que se depararam.
Os outros ficaram acompanhados apenas da sua solidão, tristeza e fracasso.

"A que ponto vai a desgraça, até quando seremos escravos deste abraço mal dado da vida?!? (...) Este invólucro defeituoso
estava-lhe gravado na alma para a eternidade". Toda esta parte do texto é de fazer lágrimas virem à tona dos olhos,
está realmente fantástica a crueldade da descrição da vida do anão. Não que eu seja anão mas isto tem muito de veradeiro e
posso-me identificar com certos sentimentos... bem que sei eu? Como disse: não sou anão o.O

Não estava à espera do final, não sei se há planos para mais partes mas parece-me a mim que fica tudo em aberto.
É um final um pouco brusco sem por isso ser incompleto, a mim parece-me ter um género de duplo sentido como disse antes,
tanto pode acabar aqui a estória e deixas assim o leitor decidir se o circo existe na realidade ou se existe apenas
dentro deles, como pode haver (mais) uma sequela. Seja qual for a tua ideia creio que não desiludirá ninguém.

Beijo,
Vash

Stella Nijinsky disse...

Olá Vash,

Obrigada por teres lido e comentado!
Assim que escrevi a primeira parte do conto, soube que não teria um fim feliz. Ainda está para vir o dia em que tal aconteça neste blogue :-), terei que estar mesmo muio bem disposta!!

É bem verdade que podia fazer um terceiro post, tive consciência disso. Deixei em aberto, sim, mas não o vou fazer. Podia usá-lo para salvar os personagens, mas o destino é cruel e assim... assim não vou usar o pano que tenho aqui para mangas.

Se queres conto-te o fim da história, o que aconteceu a todos os personagens, mas tem que ser por email, pois não quero "estragar" as interpretações que outras pessoas que eventualmente leiam possam ter.

Fico à espera q mandes o teu email para o meu!

Stella

Subterranian \ Ultravioleta disse...

o texto é grande e quero exprimir-me bem, portanto vou tentar dizer por partes:

- logo o ínicio ("Com as suas mochilas e uma tenda às costas, não precisavam de mais nada para prosseguir, trabalhavam em qualquer lugar e tinham consigo tudo aquilo que poderia fazer falta") remete-nos para o conceito de viagem, o que é importante aqui, porque senti muito que se pode viajar com eles e por eles neste texto.

- o diálogo sobre a China e as crianças é muito terno, gostei muito do modo como o construíste, está unusual (não me lembro de correspondente em português).

- a descrição que fazes das suas vidas é extraordinária. acho que o importante num texto para os outros lerem é conseguir que quem leia não perceba, mas sinta o que as personagens (ou o escritor) sentem. e eu senti o que li. dou uns exemplos de partes em que senti isso:
"Via as mulheres que tinha amado e que nunca souberam que alguém como aquele anão as desejava tão ardentemente; via-se velho e literalmente sem nada; via-se acabar mas não sabia como. Não era como se morresse, mas como se ficasse para sempre ali com o desespero e o vinho, ou sem vinho, pior ainda."
"Continuaram a andar com o Sol diagonal já a entrar-lhes por baixo das solas dos sapatos, com o sentido consolado do dever perante a integridade e infalibilidade dos seus propósitos. Durante dois dias desfrutaram da vida e das pessoas, o mal com encolheres de ombros despreocupados como convém, e o bem com a alegria que procuravam e encontravam a cada instante em tudo"

- entrando em delírio interpretativo, acho que o tema de viagem que não vai dar a lado nenhum remete-nos para a vida em si porque muitas vezes, é o que parece ser.

- há uma parte que achei particularmente triste no texto, que foi esta: "sem um corpo que lhe permitisse ter um outro tipo de vida que não o exibir, justamente, esse corpo, sem amor, sem amor, sem amor e sem qualquer amor, nem a morte poderia salvá-lo de alguma vez ter sido aquilo que era. Este invólucro defeituoso estava-lhe gravado na alma para a eternidade" lembrou-me do homem-elefante, e dessa doença que é a superficialidade.

queria apenas acrescentar que concordo que na blogsfera que quase nada tem de jeito, este blog é um bom reduto de qualidade.

parabéns, e continua por favor.

Stella Nijinsky disse...

Olá ST/UV,

Agradeço muito a delicadeza e a atenção que me foi dirigida ao escrever este comentário.

Fiquei contente por teres/terem conseguido realmente sentir o texto e os personagens.

Quanto ao "delírio", sim, realmente pode conceber-se uma versão totalmente interior em que a viagem seja uma metáfora, aí espelhando a quantidade de vezes que se luta e não se atingem os fins pretendidos.

No entanto, a viagem é real. Na verdade, não vai mesmo ter a lado nenhum pois, e em jeito de prólogo, fica aqui a indicação de que o Cirque de Jaffar é uma região montanhosa chamada de cirque pela disposição em círculo dos cumes de 5 montanhas...

O que pretendi ilustrar com esta viagem que poderia realmente não ter existido, é o confronto entre razão e liberdade. Sílvia pensava e preocupava-se demais, logo, vivia angustiada; já para os palhaços, tudo eram facilidades, escolhiam preocupar-se pouco. Todos eles foram imprudentes, no caso de Sílvia, porque é impossível viver assim, chega-se a um estado de nervos e de ira, pela luta contraproducente contra aquilo que considera, na vida, tê-la tratado com injustiça; no caso dos palhaços, tal era a despreocupação e o achar que a vida os encheria de dádivas, que acabaram a morrer de fome e de frio (dada a altitude) numa montanha em Marrocos.

Gostei da analogia com a história do homem-elefante e o reflexo na vida e na felicidade das condições com que cada um se apresenta à partida que , por fugirem aos padrões de normalidade passam a apresentar-se como entraves ao desenvolvimento normal da vida em sociedade. No mínimo, a consequência será a superficialidade de que faláste, por oposição à profundidade dos sentimentos, iguais ou diferentes em todos nós, mas não função do invólucro que trazemos.

Por fim, resta-me agradecer e muito a confiança que foi aqui depositada através das tuas/vossas palavras. É um estímulo muito importante, que nos dá muita força.

Todo o trabalho sério aguarda a sua compensação!

Stella