26/09/2007

Impossível Ousadia

impossível ousadia
caminhar, consciente
para o amor fracassado

Mais que amor,
que o amor terno,
a loucura,

matar ou morrer por amor
matar e morrer de amor

ousadia surreal
de tão impossível
ousadia

malfadado arrojo,
inútil alienação
fado que se não cumpriu

matar e morrer por amor
matar e morrer de amor

impossível ousadia
ter algum dia ousado o amor



* * *



15/09/2007

Abraçada II

Com as suas mochilas e uma tenda às costas, não precisavam de mais nada para prosseguir, trabalhavam em qualquer lugar e tinham consigo tudo aquilo que poderia fazer falta: narizes de palhaço, balões, os sorrisos de rugas já cravadas na pele e dois ou três quilos de maçãs vermelhas, oferecidas por um casal de espectadores de perto da terra de onde saíram.

- Quando chegarmos ao Circo, Sebastião, quando estivermos já mesmo a vê-lo, sentamo-nos para prepararmos a nossa entrada triunfante, para combinarmos os nossos melhores truques. Acho mesmo que só depois de descobrirmos qual o número a apresentar é que devíamos comer estas maçãs. Até lá, Sebastião, vamos ter que arranjar público!
- Bem, temos balões para ir até à China!


- Até à China, não sei, pois sei que lá há imensas crianças e os balões não iam chegar para todas. Até podiam mandar algumas 'pra cá! Ouvi dizer que não as querem todas acreditas nisto?

- Ora Martelo, isso é impossível! Acho que ninguém no mundo poderia sequer pensar em mandar os seus filhos embora de casa, disse parando por momentos a caminhada decidida que levavam.

- Não sei se isso é assim, mas mesmo que fossemos até à China, tenho a certeza que lá devem ter lojas onde se vendem balões!

Continuaram a andar com o Sol diagonal já a entrar-lhes por baixo das solas dos sapatos, com o sentido consolado do dever perante a integridade e infalibilidade dos seus propósitos. Durante dois dias desfrutaram da vida e das pessoas, o mal com encolheres de ombros despreocupados como convém, e o bem com a alegria que procuravam e encontravam a cada instante em tudo. Com públicos cada vez mais pobres mas não menos numerosos do que os anteriores, não lhes faltou comida e transporte. Guardaram as maçãs, símbolo do retorno imediato do objectivo a atingir, para comer em puré cozinhado à luz da lua. Queriam adormecer e acordar a ver e ouvir o circo ao longe para, revigorados, serem bem transportados a uma nova realidade. No entendimento de Martelo, onde seria feliz com Sílvia e os cães e o anão poderiam viver confortavelmente!
Ao longo da viagem estiveram sempre acompanhados da imagem do circo, uma miragem que começava com o som da mistura de músicas e rumores de barulho de gente; depois vários cheiros entravam-lhes pelas narinas, cheiros a carnes grelhadas e a farturas oleosas; o cheiro da impaciência dos animais enjaulados, quais artistas prontos a brilhar no palco gigante iluminado por uma lua em foco, sempre gorda e cheia, a espelhar toda a abundância de felicidade. Viam as tendas coloridas que brilhavam ao som dos tambores dos shows que começavam pela manhã e que só acabavam a horas bastante tardias. As palmas das pessoas que vinham de longe em família e daquelas que gostavam de levar mais frequentemente aquela injecção de feliz utopia, anunciavam a cada vez maior proximidade. Com a ajuda das boleias que apanharam, conseguiram chegar depressa ao cais, que os atravessaria pelo mar que separava os dois continentes. Não se aperceberam que para isso iriam precisar de dinheiro, pois acreditavam que o maior circo do mundo devia ter travessia mais do que assegurada, fluxo de felicidade e energia sem o qual o circo não poderia existir. Na última boleia que apanharam, o homem que conduzia dissera-lhes que havia muitos barcos. Imaginaram a margem repleta de barcas à vela, cheias de balões, a deslizar sobre o mar de intenso azul, tudo muito brilhante e colorido.

Ainda não tinham descido da carrinha e já viam, não pequenos barquitos mas enormes navios e a actividade de um ror de gente.
- Este é o caminho para Jaffar, boa viagem!, despedira-se o condutor, seguindo sorridente para a fila dos carros que iam fazer a travessia.
- Não posso acreditar, Martelo, isto ainda é muito maior do que aquilo que estávamos à espera!...
- Dá-me as moedas que tens nos bolsos, Sebastião, deve ser preciso pagar o barco.
- Pagar?!?
- Sim, isto não deve estar a cargo do circo, que ainda é longe, temos que pagar... Tomaram os seus lugares na longa fila, tendo logo aproveitado para sacar dos balões. Depressa encheram tudo à volta da cor elástica dos balões, fazendo cães e coelhos, homenzinhos gorduchos e muitas flores. Com isto, conseguiram juntar mais algumas moedas, mas quando chegou a sua vez de comprar os bilhetes perceberam que não tinham dinheiro suficiente para aquele barco. Tiveram que esperar por outro, mais velho e mais lento, por isso mais barato. Tendo conseguido embarcar, nada parecia diminuir a sua euforia, afinal, todas aquelas pessoas tinham contribuído para que, também eles, pudessem chegar ao circo! Ao cruzar o estreito cheio de cheiro a mar, tiveram a certeza de que podiam respirar com confiança, apaziguada que estava a razão. Nesse fim de dia, as horas sossegadas tornaram mais presente a saudade de Sílvia. Vinha-lhes ao pensamento a sua imagem, com o anão, em pé lado a lado, ele metade dela em altura mas o dobro em largura, a olhar para eles enquanto estes lhes dirigiram um último encolher de ombros feliz de narizes encarnados, acenando com a mão direita. Sílvia e o anão viram-nos afastarem-se com os cães a saltitar ao ritmo do seu passo logo atrás.
- Não pensem que eles vos vão levar!, malditos cães, ainda ficam aqui a pedir de comer, dissera Sílvia cheia de raiva e de inveja, pois ela não escondia os maus sentimentos, apenas os bons que não tinha, apesar de naquele momento o seu sentimento mais flagrante ser o da dor da solidão.
Nas horas a seguir à partida dos palhaços, Sílvia refugiou-se sozinha na sua velha caravana, no costume das lágrimas não silenciosas e dos gritos de morte. O anão ficou na rua, sentado no chão, encostado a uma pedra, ladeado pelos cães, acompanhado por uma garrafa de vinho barata. Durante algumas horas sem parar de ladrar, até os cães ficaram perplexos com a histeria de Sílvia, tanto que acabaram por se remeter a um silêncio derrotado. O anão não se importava assim tanto com aquela barulheira; ela era assim há já tanto tempo que só estranharia dela um comportamento normal. Era a música da gritaria héctica de Sílvia que o acompanhava, e também ele a chorar, sem medo, a vida.
A certo momento, deixou de se ouvir Sílvia; quando cessaram de a ouvir, os cães começaram um latindo agoniante, sucessivamente ritmado, repercutindo a vida que anda de mão-em-mão, na mão de todos e não na de a quem pertence.
A que ponto pode alguém ser atacado desta maneira, a que ponto, a que ponto, repetia o anão em voz alta, assemelhando-se a Sílvia a perder as estribeiras, quando possuída por si mesma.
- a que ponto, berrava, a que ponto... até quando?, desgraçado abanava a cabeça, baixando-a perante a solenidade fúnebre e inapelável dos uivos caninos.
- A que ponto vai a desgraça, até quando seremos escravos deste abraço mal dado da vida?!?

Mil imagens percorriam a pequena grande cabeça do anão, a sua solidão em miniatura era sequenciada em diapositivos, os quais se forçava a ver. Via as mulheres que tinha amado e que nunca souberam que alguém como aquele anão as desejava tão ardentemente; via-se velho e literalmente sem nada; via-se acabar mas não sabia como. Não era como se morresse, mas como se ficasse para sempre ali com o desespero e o vinho, ou sem vinho, pior ainda. Sem nada do que é material, uma casa, um emprego, e sem um corpo que lhe permitisse ter um outro tipo de vida que não o exibir, justamente, esse corpo, sem amor, sem amor, sem amor e sem qualquer amor, nem a morte poderia salvá-lo de alguma vez ter sido aquilo que era. Este invólucro defeituoso estava-lhe gravado na alma para a eternidade.

No dia seguinte o anão acordou com o sol já alto, não se ouvia ninguém e os cães tinham-se ido embora. Deviam ter percebido que aquele sítio estava cheio de morte. Levantou-se, ainda embriagado, dirigindo-se, como se soubesse o que o esperava, à caravana.

Martelo e Sebastião prosseguiam a viagem já há dois dias, após o desembarque. Apanhar boleia não foi assim tão difícil, mas pior arranjar o que comer. Não faltavam as crianças e sobravam ainda as maçãs, já moles, para jantarem quando chegasse a noite. Tinham que chegar nessa noite, tomar banho nalgum riacho que encontrassem e fazer os preparativos da sua entrada no circo, altura em que comeriam, finalmente, as maçãs.
- Deixa-me dizer-te, Se-bas-ti-ão, que já me cheira. 'Tás a ver aqui esta montanha? - disse, com o dedo amarelado sobre o mapa,- Esta montanha que faz um círculo, lá dentro é o circo, 'tás a ver?
De acordo com o mapa, estavam realmente muito perto, mas estranhamente, ninguém parecia conhecer o circo, todas as pessoas diziam que era aquele o caminho mas depois tentavam dizer-lhes alguma coisa que não percebiam. Os dois últimos homens que lhes haviam dado boleia tinham repetido, várias vezes, que não havia circo, o que quereriam dizer com isso? Impossível, o circo não podia estar fechado! O mapa era recente, não havia que duvidar da informação que ele continha, concluíram, dispostos a seguir em frente.
Caminharam, corajosamente, o percurso pedregoso que se seguiu pelo deserto, passaram várias povoações cor de barro, onde as pessoas se riam deles mas pouco ou nada diziam. Já não acreditavam em nada do que viam, nada parecia ser real. Sem querer ganhar um tom obstinado, pois consideravam o seu objectivo perfeitamente exequível, não quiseram averiguar a razão de toda a gente lhes dizer algo que, mesmo naquele poliglotismo atrapalhado, apontava, no mínimo, para que o circo estivesse fechado. A única realidade que lhes dizia respeito era o circo, nada mais, só com isso poderiam tudo o resto, sabiam-no sem o saberem, pois para eles sempre tudo tinha solução. Esforçaram-se por acelerar o passo fatigado.
Finalmente, tinham parado com a conversa ininterrupta sobre o circo e os planos de felicidade, o calor agudo e o pó da terra tinha-lhes atacado a garganta, Sebastião tossia sem conseguir parar.
Ao cair da noite e com o avanço da boleia de um jeep, cujos ocupantes tentaram seriamente fazê-los voltar para trás, o ar estava muito mais fresco, já deviam estar a chegar perto do circo, um oásis, só podia ser, no meio das montanhas! Resistindo estoicamente a comer as maçãs, deixaram de ter fome. O estômago indisposto provocava-lhes náuseas e na dor de cabeça impossível vinha-lhes ao pensamento a imagem de Sílvia e do anão, em pé lado a lado, ele metade dela em altura mas o dobro em largura, a olhar para eles enquanto eles lhes dirigiram um último encolher de ombros feliz de narizes encarnados, acenando com a mão direita.