26/08/2007

Abraçada I

Mais-que-perfeito, Martelo e Sebastião viviam felizes, felizes por ver a felicidade a cada milímetro do seu olhar. Profissão tornada vida não o era porque escolhida, tanto um como o outro já tinham nascido palhaços.

Apesar de serem cem por cento palhaços, não eram palhaços normais. Talvez fossem precisamente esses cem por cento que os diferenciavam dos outros palhaços. O que será da prudência?

Sílvia era uma mulher palhaço e vivia abraçada pela vida. O seu espírito não era livre, e tinha a noção disso. O sufoco desse aperto era frequentemente atirado em pontapés aos cães que julgavam contribuir com companhia e guarda para o acampamento, em troca de restos diários de comida que lhes impedia de cairem abaixo do ponto em que morreriam de fome.

Passava muito tempo calada e lacrimosa o que preocupava os dois palhaços, principalmente Martelo, seu irmão protector e seu hipotético amante, acaso ela amasse além do sexo e do desespero. Mas quando desatava a falar era pior ainda, emitia opiniões e tecia sentenças a uma velocidade impressionante e com uma pronunciação silábica que mantinha intacta a perceptibilidade dos seus quase discursos. Não era mesmo significativo ser ouvida porque não havia nunca nada a fazer senão encolher os ombros e isso até era um dos principais trejeitos dos dois palhaços, seguido de um olhar que vai rapidamente do desiludido ou triste ao novamente feliz.

Sílvia não tinha capacidade para concluir assim os seus actos. Aquilo que normalmente levava a plateia a rir-se, quando actuava, tinha vindo a tornar-se, com os anos e consequente agudização da sua soma de descrenças, num espectáculo carregado de bizarraria e de verdade.

Subia ao palco ou, mesmo na rua, com espectadores ocasionais, entrando sempre numa caminhada nervosa e demasiado inclinada para frente nenhuma, que levava nunca a lado algum. Entre dois ou três destes andamentos despropositados, tropeçava em alguma coisa que a atirava, ridícula pela fúria não justificada que a deixava em dívida, para o conforto efémero da dureza do chão. Havia que levantar-se vezes e vezes sem conta, podendo mostrar, eventualmente, a alguém que estranhamente a percebesse, que aquilo não era um circo mas a vida de todos nós.

Os esgares de troça da audiência seguidos de uma série apenas de gargalhadas eufóricas eram, para ela, compensados com o escárnio que cada um dirigia a si mesmo sem o saber, pois muitos são os que vão andando pela vida com a única força motora do tropeção, da gastura de joelhos consecutivamente esfolados e o cansaço da impossibilidade das palavras e dos gestos, mesmo que não dêem por isso. Ria-se e gozava para dentro quando na curta representação, depois de ter sido burlada pelo anão tergiversador, tão torto que não andava mas ondulava, o via regozijar-se com a conta salivada nas sua mãos de três dedos das notas de Euro cheias de cansaço e de mais um bocado de paciência para a vida que lhe havia extorquido.

O dente de ouro bocado de vidro brilhante que reluzia com as luzes do show colocado junto dos outros adereços em cima da mesa e o anão a dizer a Sílvia, como no fim de todas as noites, que um dia teria dinheiro para implantar os dentes que lhe faltam e os que ainda lhe doem. Ela com a cabeça deitada na mesma mesa sobre os braços, com os três dedos do anão a tirar-lhe, cheios de precisão e de paciência os nós do cabelo, companheiro de compreensão de lágrimas cheias de maquilhagem.

Perto dos seus espectáculos e dos seus longos silêncios, os seus quase discursos (porque não careciam de destinatário) acabavam por ser um luxo para quem gostava dela e queria tê-la por perto, Martelo e Sebastião, o anão, os cães não certamente. Era como se voltasse a si, à razão, por momentos, para depois alucinar novamente desse abraço mal dado da vida. A cada interregno de silêncio de lágrimas quebrado apenas por choros irritantes, parecia que se levantava e voltava ao amargo de si, às palavras atiradas como facas à traição, sem respeito, sem razão e cheias dela. A mesma desconsideração tinha-lhe sido arremessada pela vida vezes incontáveis, brutais pontapés de desespero, sem compaixão e sem culpa a quem atingir. Um novo ciclo fechava-se como sempre, com ela a lavar, com a sua culpa por ter tentando retaliar a culpa anónima da vida, os pecados da alma. Passava dias e dias a escova-la meticulosamente com o seu pensamento em silêncio e prometendo-se ser melhor, para desembocar depois em nova histeria.

Martelo e Sebastião faziam grande uso da razão, mas faziam pouco dela. Queriam lá saber da razão para alguma coisa! Sabiam que ela estava lá, dócil, sempre a dizer-lhes, enformada nas suas almas de palhaço, o que fazer, mas mesmo assim só em raras vezes e circunstâncias especiais lhe davam ouvidos. Não era como a razão impossível de Sílvia. Essa, sempre a exigir ser ouvida no volume máximo, conheciam-na tão pouco quanto Sílvia a liberdade. Sabiam esperar que as coisas, sinónimos consequentes de felicidade, fossem ter com eles, enquanto estavam, deliciados, a experimentar a vida em todos os seus dias.

Começavam, no entanto, a sentir algum cansaço de estarem há imenso tempo no mesmo sítio para que conseguissem continuar a ver a felicidade a cada pedra, a cada árvore que não existia, kilómetros e kilómetros cúbicos de cascalho e de ar quente estavam a esgotar o potencial infinito que os dois inicialmente tinham diagnosticado àquele sítio na berma do inóspito: "Se não tivermos pessoas, temos pedras, que ao quase morrerem de riso com as nossas actuações se irão transformar em flores e, com estas, virão as pessoas, as pessoas com crianças sorridentes e também com lágrimas, que serão depressa apagadas", tinham dito uns dias depois de ali chegarem, concluindo a constatação atrasada e quase surda da razão de que ali não passava quase ninguém, seguindo-se o tal encolher de ombros a crescer em direcção ao brilho do olhar feliz!

Após numerosos encolher de ombros, perceberam pela voz insistente da razão adiada de palhaço, que tinham que mudar-se novamente. O Norte tinha-se tornado impossível pela falta de crianças cujo sorriso pudesse ter origem na inocência das piadas de um palhaço e a modernização dos espectáculos da concorrência fazia com que os recursos da improvisação se tornassem cada vez menos atractivos. De acordo, decidiram continuar o seu passeio nómada pela vida, com a esperança quase certa de encontrar um publico à sua semelhança, com crianças que os fariam continuar a sorrir sempre.

Partiram para Sul deixando Sílvia desconcertada a ponto de ser abraçada por sentimentos que habitualmente não tinha, tais como o amor e dúvidas em relação ao seu próprio cepticismo, mas com uma insegurança e sentimento de abandono que já lhe eram costume. Quanto ao anão, ficou na esperança prometida de que, a haver um bom circo para trabalhar, seria de alguma maneira chamado pelos palhaços. Tinham-lhe dito, já Sílvia tinha adormecido no choro, que viram no mapa o nome de um circo que devia ser muito grande, onde haveria lugar para todos os artistas, um lugar com muita gente pois se o nome até vinha no mapa! O anão teria ido com eles, não fosse o seu corpo mal enformado...

2 comentários:

vash disse...

Antes de mais: Bem-vinda! Esta obra está realmente algo de extraordinário.

A vida é retratada de modo tão cruel e ao mesmo tempo tão inocente com os nossos defeitos e falhas reflectidos nas vidas alheias. É sem dúvida um texto de significado profundo, e eu sempre imaginei que os palhaços são as pessoas mais tristes à face da terra exactamente por serem palhaços e fazerem as pessoas rir com os seus desastres. Acho que a estória ilustra muito bem essa faceta desconhecida da "vida por trás da máscara".

Em termos de escrita está ao nível dos anteriores mas -talvez pela estória em si- este texto fez-me lembrar muito o grande Garcia Marquez fazendo-me ter uma ponta de inveja da tua obra [inveja saudável =)]. Tinha em mente fazer copy/paste de algumas das minhas partes favoritas mas quando acabei reparei que eram mais que muitas e por isso fica apenas o elogio à obra e, claro está, à escritora.

Kudus

Subterranian \ Ultravioleta disse...

Olá. Sim, grandes férias. Tornaram-se grandes por eu ter ficado sem PC e ter perdido as fotos todas, e a fotógrafa andar aí perdida algures entre a Europa e o Médio Oriente. Mas isto agora vai recomeçar a sério.

Em relação a este conto, achei bastante bom, tanto pela forma como começa, tanto pela forma como acaba, parece realmente que arrancaste um pedaço de uma vida e a meteste em letras. Achei óptima a escolha das personagens; o facto de serem palhaços dá uma maior teatralidade ao conto todo. E fazes bem a descrição psicológica das personagens, o que é o mais importante para elas parecerem reais.

Parabéns.


PS: Em resposta à tua pergunta (embora retórica) no teu comentário, sim, penso que um dia poderemos olhar para nós.